Pente Fino

 

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Despossessão da língua do outro: Guimarães Rosa e seus comparsas africanos.

 

Maria Nazareth Soares Fonseca(PUCMG)

 

O escritor, Édouard Glissant, da Martinica, em vários momentos de sua reflexão teórica, afirma que a grande questão relativa à afirmação da identidade dos espaços demarcados pela colonização é a que se expressa no modo como as línguas européias, transportadas para o Novo Mundo, foram alteradas a partir da “provocação” da palavra falada e da sintaxe particular do universo da Plantation que, aos poucos, foi alterando a língua dos senhores. Nesse cenário, pode-se dizer, que o problema da despossessão (1),  oriundo do modo como a terra habitada deixa de se constituir em espaço ancestral ou em “espaço possuído”, não consegue evitar que formas de resistência surjam na paisagem de dominação característica dos espaços colonizados. Na visão do teórico, tais formas de resistênciapodem ser identificadas na escrita literária quando procura incorporar as diferentes feições da provocação da palavra falada. A reterritorialização das línguas européias, nos diferentes espaços que conviveram com a colonização, povoa a escrita do barulhamento da oralidade e dos gritos sufocados pela ordem social. Essa escrita oralizada, aberta às modulações da voz e da gestualidade, torna-se resistência e poderia ser aproximada do fenômeno amplamente generalizado nas regiões de civilização caraíba  a que os teóricos antilhanos denominam de marronagem (2).,


Tal aproximação nos incita a pensar na produção de linguagens que perturbam “o monolinguismo do outro” (3) – a expressão está sendo entendida num sentido bastante amplo – para contestar os limites rígidos entre o oral e o escrito tal como se apresentam em narrativas do próprio E. Glissant e Patrick Chamoiseau, também da Martinica. Em muitos romances desses escritores, a voz narrativa assume as modalidades do “contador” ou faz parceria com outros narradores numa enunciação coletiva que acolhe o barulhamento da oralidade.


Essa proposta de escrita atravessada pela oralidade está também em romances de escritores africanos como Luandino Vieira e Mia Couto e mesmo em Guimarães Rosa, quando busca a “álgebra mágica”, a (re)construção da linguagem literária, valendo-se de recursos que formalizam a intenção do texto de construir travessias. Todos esses escritores são comparsas na arte de transgredir normas e leis, de aventurar-se pelo risco de uma escrita que se faz “passagem do limite” (4).


Vou recuperar um pouco desse trabalho de transgressão, retomando algumas características da escrita desses criadores que assumiram o desafio de escrever a oralidade em seus textos.

 

 Édouard Glissant publica, em 1981, a sua obra mais conhecida, Le discours antillais e nela aponta as direções de sua proposta de instalar a escrita literária no limite entre o escrever e o falar: não apenas na escrita ou somente no oral, mas no lugar em que o romancista pode se colocar como observador da fala cotidiana (Glissant, 1981, p. 256). A proposta do escritor desvia-se, pois, dos modelos de clareza e de concisão que legitimam a escrita como oposta à oralidade. Apropriando-se dos recursos utilizados pelo contador de história crioulo e da sintaxe particular que acolhe as repetições, as reduplicações, a circularidade da contação, Glissant, já em Le discours antillais, assume as transgressões propostas pela proximidade com que o exercício da escrita se elabora atento com os significantes modelados pela voz e assume a subversão que se instaura no campo da linguagem.  A escrita oralizada transforma-se em ação que nomeia a inscrição da diferença na paisagem colonial; os esquemas de controle são minados por uma escrita infestada de gestos e sons, balbucios que destabilizam particularidades do sistema de dominação implantado pela colonização. O balbucio se faz língua de resistência e sua sistematização marca os pontos de divergência do créole e, mais tarde, configura a escrita da transgressão.


Percebendo o créole como uma ação que faz aflorar as contradições de um espaço cultural nomeado pelo discurso colonial, Glissant exercita, na escrita, uma experiência de tempo fragmentado e uma colagem de histórias que hibridizam o texto produzido “entre a sintaxe escrita e a rítmica falada” (Figueiredo, 1998, p. 86). Para a feitura dessa escrita são conclamados os significantes de um mundo que se mostra em sonoridades, fala,canto,dança,gritos,imprecações. Recuperam-se elementos do conto tradicional, da arte da contação, dos rituais em que a palavra oral circula, como nas “audiences”(5) haitianas em que a fala do griot retoma as tradições que sustentam a vida em comunidade.


A ousadia de Glissant está também em romances de Patrick Chamoiseau, principalmente em Texaco, em que  a escrita forçada a conviver com expressões e construções típicas do créole, língua de expressão predominantemente oral. As imprecações, xingamentos e zombarias denotam o forte enraizamento do romance nas tradições populares  que procura moldar o francês às suas necessidades, crioulizando-o, criando um francês ‘chamoisisé’, como acentua Figueiredo (1998, p. 111).


Texaco desafia, pois, tanto as certezas do traçado arquitetônico do sistema colonial, quanto a perenidade de um modelo de ocupação espacial que precisa esquecer suas próprias contradições para legitimar-se enquanto projeto. Por isso o romance associa a derrubada do bairro à morte da oralidade e da tradição dos griots que, como Marie-Sophie Laborieux, uma das vozes que se revezam na função de narrador no romance,não foram chamados a participar do plano de urbanização da cidade. 


É significativa, no romance, a questão colocada por Marie-Sophie, uma das narradoras, quando percebe  a possibilidade de uma escrita que se faça em diálogo com os sons da oralidade, produzindo-se no interior de zonas de instabilidade, no limiar: Oiseau de Cham, existe uma escrita informada pela palavra e pelos silêncios, e que permanece viva, que se mexe em círculo e circula o tempo todo, que irriga de vida, incessantemente, o que foi escrito antes, e que reinventa o círculo a cada vez, como fazem as espirais que estão a todo momento no futuro e na frente, uma modificando a outra, incessantemente, sem perder uma unidade difícil de se designar? (p.286).


Na África, nos países de língua portuguesa, o mesmo movimento que, na Martinica, ousou invadir o sistema da língua francesa com as vozes da oralidade e com os recursos da contação, leva o escritor Luandino Vieira, de Angola, e, mais tarde, Mia Couto, de Moçambique, a se envolverem com projetos literários que demonstram a predileção pelas tradições que circulam no meio do povo.


No caso de Luandino Vieira, a imersão no universo da fala, no cotidiano dos musseques ajuda a produzir uma escrita que trapaceia com a língua portuguesa e tensiona o modelo literário ocidental. Tal processo, como em Glissant e Chamoiseau, se faz com uma intenção política declarada. Não se pode dizer, todavia,que a literatura produzida por Luandino se esgota numa atitude política, mas a escrita dessa literatura quebra com a tradição romanesca centrada no indivíduo e em suas angústias e se deixa povoar pelas falas dos espaços onde o povo se expõe.


Em Luandino, a intenção compor entrelaçamentos que inscreve na escrita literária a língua dos musseques fortalece-se em Luuanda, publicado em 1972, e radicaliza-se na inventividade de João Vêncio: os seus amores, de 1979. Nesse romance, a fala obsessiva de um narrador, acusado de homicídio frustrado, é registrada com a marcação dos contornos expressivos da oralidade. A ânsia de suturar os vazios de uma falta angustiante leva o narrador, ao lembrar de seus amores, a transitar pelas modulações de voz, caminhando por interditos, assumindo a multiplicidade de discursos  que  tecem a narrativa.


Na enunciação literária aflora o esforço da escrita para fugir das grades da kionga, da prisão da língua herdada do colonizador, deixando-se espraiar pelas criações sonoras da oralidade, pelo gozo de uma língua outra, que é canto, sussurro, balbucio, bégaiement, como observa Glissant (1981). As feições dessa língua outra acentuam a resistência produzida por uma literatura que busca na oralidade apaziguar sua sede de belezices: Muadié: eu vejo o que o senhor está a ver – os claros verdes das folhas xaxualhantes das figueiras-da-índia. Os periquitos de cem cores, do Roçadas vieram, são dos guardas, a beleza deles ali ciscando, descuidadosos.(p. 88)

Vários traços dessa “falescrita” delineiam uma feição importante de uma literatura que se quer em diferença e marca essa diferença com os sotaques africanos inscritos no português. Os recursos de reinvenção de linguagem mostram-se como estratégias de solapagem, como uma “contra-poética” que se vale da junção de elementos culturais diversificados. O romance de Luandino Vieira toca, assim, na questão apontada por Edouard Glissant: os processos de “desfiguração de si mesmo”, de despossessão, legitimados pelo sistema colonial e fixados pela distância perturbadora existente entre o colonizador e o colonizado. A fala de João Vêncio valida, pois, o esforço para expurgar essa compartimentação, pois “banza o léxico e assume o patuá”, legitima  os cruzamentos: “casa o fogo e a água no seu foro” (p. 41). Não é por acaso que a astúcia do narrador, ao deslocar o relato da “tentativa de crime frustrado” para a revivência de múltiplos amores, permite o gozo que advém das misturas do português com o quimbundo, que elaboram os contornos de uma língua-mãe-amante, transformada e transtornada. As palavras do narrador resgatam os sons próprios da terra angolana, os meandros dos musseques, a gostosura das misturas de línguas: “riso d´oiro branco cangundo, mulato ribengo, negro, carvão, sem discriminâncias prosápias” (p. 59). O exotismo cede lugar à busca de uma escrita que se tece com múltiplos fios, como um colar de contas amigadas que desafiam a imobilidade de uma escrita bem comportada. As misturas de registros ganham, assim, contornos marcadamente políticos e intencionalmente desestabilizadores.


De algum modo, a experiência de Glissant, de Chamoiseau e a ousadia de um Luandino Vieira e de outros escritores africanos, que desafiaram as ordens dos sistemas lingüísticos que nomearam a colonização, também está em Guimarães Rosa, ainda que as transgressões operadas por ele, no campo da língua portuguesa, não tenham sido motivadas por desafio à ordem estabelecida.


É sabida a ojeriza que o escritor brasileiro tinha pelo engajamento do escritor em causas políticas, pelo desvio de uma missão que, segundo o próprio Guimarães Rosa, é com o homem e não com questões do dia-a-dia (1994). No entanto, ao propor uma escrita que se quer desviada de normas e usos convencionais, porque nasce da invenção, do pacto ditado pelo diabo, como ele próprio diz (6), reforça a crença do escritor no compromisso da literatura com o homem, com o humano.


Em que a proposta criativa de Guimarães Rosa se aproxima da de seus comparsas antilhanos e africanos, quando investe em criações que o fenômeno da desterritorialização das línguas européias propiciou? 


No projeto literário de todos os escritores citados neste trabalho, ainda que devam ser consideradas as razões específicas de cada proposta, observa-se a intenção de acolher, na escrita, a fala, os gestos, a cenografia da oralidade. Todos os escritores mencionados neste texto assumem a subversão da linguagem como uma estratégia de composição do texto.Sobre essa questão, Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz (1994), esclarece que o seu trabalho com a língua é semelhante à relação de um casal de amantes “que, juntos, procriam apaixonadamente” (p. 47). A metáfora envolve de erotismo um processo que o escritor mineiro quis sempre associar ao ato criador que está no homem e na vida. O trabalho com a escrita buscaria retomar o milagre da criação, tocar nele e, como diz o próprio escritor, corrigi-lo, quando preciso. E ao buscar a “origem da língua”, o momento em que “a palavra ainda está nas entranhas da alma” (p. 49), o escritor não se furta a observar as mutações que as culturas africanas e indígenas imprimiram ao português do Brasil, dando-lhe traços que o fazem diferente da língua portuguesa usada em Portugal (7).


É interessante, pois, observar que o trabalho de criação, em Guimarães Rosa, acaba por retomar elementos da resistência à despossessão de que fala Glissant, quando opera com recursos fornecidos pela oralidade. Edouard Glissant afirma que o escritor precisa de repovoar a língua literária com os sentidos que nascem da incursão do homem na terra. Guimarães Rosa assume as         “ilimitadas singularidades filológicas” do português do Brasil provocadas por “razões etnológicas e antropológicas”. O escritor brasileiro reconhece que é preciso descarnar a língua portuguesa do Brasil “dos lugares-comuns, das expressões domesticadas e acostumadas”(8) de suas marcas européias para que ela possa dar conta da alquimia que mistura elementos díspares em busca das transformações, das transmutações. A  percepção de alterações provocadas pelo uso da língua transparece na fala de Riobaldo, narrador ardiloso como João Véncio, quando procura construir com palavras hábeis uma visão de mundo: O senhor...Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. (GSV: 1994, p. 20).

 

Sem querer, porque não acredita mesmo que literatura seja arte que se preocupe com o corriqueiro (p. 52), Guimarães Rosa, entretanto, não deixa de percorrer os caminhos que conduzem à experiência dos escritores antilhanos e africanos. As diferenças entre eles fazem-se, pois, proximidades e seus percursos, mesmo se bifurcando, fazem-se elos de uma teia de experimentações, riscos e invenções. Talvez por isso, Luandino Veira e, posteriormente Mia Couto, tenham percebido em Guimarães Rosa uma direção a seguir. No caso específico de Luandino Guimarães Rosa foi uma motivação para continuar em trilhas já abertas com a publicação de Luuanda. A liberdade de criar uma linguagem atenta à fala do povo é a aprendizagem com que os escritores mencionados procuram ressignificar a língua que se espalha por veredas, florestas e paisagens ressecadas por guerras e fome. Nesses cenários, a literatura expõe-se como um lugar híbrido: deixa-se atravessar por possibilidades de, pela palavra, serem formuladas indagações sobre o mundo e sobre o modo como o homem nele se coloca.  

 

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

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CHAMOISEAU, Patrick. Texaco. Trad.Rosa Freire D’Aguiar.  São Paulo: Companhia das  Letras. 1993.
___________________. Qui faire de la parole? In:              LUDWIG, Ralph. Écrire la parole de nuit; la nouvelle littérature antillaise. Paris: Gallimard, 1994.

DERRIDA, Jacques. Le monolinguisme de l`autre. Paris: Galilée, 1996.
FIGUEIREDO, Eurídice. Construção de identidades pós-coloniais na literatura antilhana. Niterói: EDUFF, 1998.
FONSECA, Maria Nazareth Soares. Escritores africanos nas veredas  rosianas. IN: PARREIRA et al. Veredas de Rosa. Belo Horizonte: Editora da PUC-Minas, 2000. P. 482 –488.
GLISSANT, E. Le discours antillais. Paris: Seuil, 1981
___________. Poétique de la Relation. Paris: Gallimard, 1990.
NASCIMENTO, Edna Maria F. S. O texto rosiano: documentação e criação. In: Scripta, v.2,n.3, 1998, p.71-79.
ROSA, Guimarães. Ficção completa.Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
VIEIRA, Luandino. João Vêncio: os seus amores. 2a. ed.Lisboa: Edições 70, 1987.

 

Notas

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1. E. Glissant  cunha o termo para definir o processo de desenraizamento característico de culturas que, como a martiniquense, se formaram com um índice elevado de transferência de mão-de-obra não voluntária. Os escravos africanos, levados à região para desenvolver um tipo de economia que não lhes oferecia nenhum benefício, acabaram por desenvolver práticas de sobrevivência que não fortaleceram formas de coletivização. [voltar]

 

2. O termo marronnagem, de negro marron, escravo insubmisso à escravidão, é tomado por Glissant como uma metáfora das formas de resistência ao mimetismo, à alienação. Os negros fugidos, os primeiros posseiros e usuários das terras antilhanas (geralmente as situadas nas montanhas) a desafiar o sistema da Plantação criaram alternativas de resistência à dominação.
Cf. Glissant. Le discours antillais (1980), p. 67 e seguintes. [voltar]

 

3. A expressão resgata os sentidos dados por Jacques Derrida para aludir  à falsidade do “mito da língua pura”,  e da língua única como emblema da nação. Cf. Derrida, J. Lê monolinguisme de l´autre (1996). [voltar]

 

4. Refiro-me à expressão “passage de la limite”, utilizada por Jacques Derrida (1996) para caracterizar a escrita que se faz como uma apropriação “apaixonada e desesperada” da língua, através de um trabalho que, ao mesmo tempo, deforma, reforma e transforma. [voltar]

 

5. O termo se refere às rodas de contação nas quais a interação entre o contador e os ouvintes é marcada por fórmulas e gestualidade características. [voltar]

 

6. Referência à afirmação do escritor de que as estórias vinham a ele, obrigavam-no a escrever, como uma ordem do diabo. “De repente, o diabo me cavalga”, diz o escritor ao seu entrevistador Günter Lorentz. (1994). [voltar]

 

7. Cf. entrevista dada a Gunter Lorenz, p. 45. [voltar]

 

8. Estou me referindo às palavras de Guimarães Rosa, citadas por  Edna Maria F. S. Nascimento ( 2000). [voltar]