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A geração de 50 e a modernidade literária angolana

 

Maria Teresa Salgado(UFRJ)

 

"Vamos descobrir Angola” são as palavras de ordem da geração de 50. De acordo com os historiadores da literatura angolana, o primeiro a lançar esse grito foi o poeta Viriato da Cruz, que, em 1948, reunia-se com um grupo de escritores, discutindo a necessidade de se criar uma poesia nova voltada para a cultura angolana. Retomava-se, assim, o espírito destemido e questionador dos escritores e jornalistas angolanos do final do século XIX e início do século XX, como Cordeiro da Matta, que haviam trabalhado em favor do resgate e da cultura dos valores nativos.

 

Com o apoio da Anangola – Associação dos Naturais de Angola, um grupo de intelectuais, dentre os quais se destacava o poeta Antonio Jacinto, passa a se denominar como Movimento dos Novos Intelectuais de Angola (1), adotando o lema lançado por Viriato da Cruz e dando início a um projeto que envolvia uma série de atividades culturais: campanha de alfabetização, fundação de escolas e bibliotecas, edição de trabalhos, criação de concursos literários, lançamento de revistas, entre outros planos.

 

Nas palavras de Alfredo Margarido (1980, p. 338), o Movimento dos Novos Intelectuais “combatia o respeito exagerado dos valores culturais do Ocidente e convidava os jovens a descobrir Angola através de um trabalho coletivo organizado”. Um dos requisitos para tal trabalho era a conscientização do povo, começando pela sua alfabetização.

 

Infelizmente, grande parte dos projetos culturais propostos pelo Movimento não pôde se concretizar. As escolas e bibliotecas não foram fundadas, assim como a campanha de alfabetização não chegou a acontecer. Como observa Pires Laranjeira (1995, p. 273), tais projetos eram irrealizáveis a curto e médio prazo e pressupunham a criação de uma nova sociedade. Afinal, o governo colonial nunca se interessara pela escolarização dos africanos. Entretanto, a publicação da revista Mensagem, embora tenha tido uma vida curta, representou um importante passo para a divulgação de idéias, ensaios e textos literários que já anunciavam uma literatura que buscava libertar-se da tutela dos modelos europeus e aderir ao engajamento social, preparando os novos caminhos que levariam à modernidade literária angolana.

 

A proibição da revista Mensagem pelo governo português, logo após a publicação do segundo exemplar (em edição dupla), deu a medida de sua ousadia, mostrando que o polícia salazarista percebera que as reivindicações literárias e culturais da revista apontavam necessariamente para reivindicações políticas: conscientização da exploração colonial e independência de Portugal.

 

Nessa primeira fase, segundo Margarido (1980, p. 239 e 240), são, sobretudo, as vozes dos poetas Antonio Jacinto, Agostinho Neto, Viriato da Cruz e Maurício de Almeida Gomes que se destacam, ao acenar com as seguintes mudanças no panorama literário angolano: recurso ao quimbundo e deformações fonéticas da língua portuguesa, apontando já a busca de uma semântica e de uma sintaxe angolanas; influência da poesia modernista brasileira; conscientização da alienação social, valorização do quotidiano angolano e evocação das tradições culturais angolanas.

 

Desaparecida Mensagem, os escritores angolanos buscam outros meios de divulgar suas produções e encontram na revista Cultura II uma continuação do espírito desbravador de Mensagem. Tendo desempenhado, entre 1945 e 1954, um papel cultural apenas superficial, Cultura recomeçou a ser publicada em 1957, como Cultura II, adotando um novo perfil: divulga poemas, textos e ensaios protestatários e conscientizadores da situação sócio política. Ao mesmo tempo em que se abre mais ao que está acontecendo no mundo, a revista discute, cada vez mais intensamente, temas voltados para as línguas e as culturas locais.

 

Russell Hamilton (1981, p.85) não nos deixa esquecer que Cultura II marca o início de uma crítica literária já com inclinação para a polêmica. O debate “Poesia de Angolana ou poesia de Angola” suscitará várias questões que envolvem desde a origem geográfica e cultural do escritor, até a cor da sua pele, a sua fixação no solo africano e o seu compromisso social. Antonio Cardoso, Mário Pinto de Andrade, Mário Antonio e Agostinho Neto são nomes que se envolvem nesse debate. Como aponta ainda Hamilton (1981, p. 87), a autenticidade cultural será medida, sobretudo, pelo grau de consciencialização sócio política. Por outro lado, as reivindicações da cultura angolana e da cor da pele não deixam de ser expressões importantes, havendo, diversas vezes, confusão entre a reivindicação racial e a cultural.

 

Poderíamos resumir as posições críticas do momento (Hamilton, 1981, p. 88 e 89), citando, brevemente, alguns pontos de vista. Enquanto para Antonio Cardoso era preciso dar ênfase ao comprometimento político se social, Mário Antonio parecia frisar as ambivalências e impedimentos de uma literatura aculturada; já Agostinho Neto salientava a responsabilidade social do escritor de restaurar a tradição oral africana, buscando incorporá-la à poesia em língua portuguesa.

 

Como já se pode notar, são inúmeras e em diversos níveis as tensões que acompanharam essa literatura, naquele período, aflorando nas antologias e publicações da Casa dos Estudantes do Império (CEI). Através dessas publicações, assistiremos ao desenvolvimento e à afirmação de uma literatura reivindicatória angolana, que, pouco a pouco destruirá os mitos que haviam sido construídos em torno das culturas tradicionais de origem banta. Um deles, o de que as línguas africanas não se prestavam à produção poética escrita, vem por terra, com a publicação pela CEI de poemas angolanos de expressão banta e com as pesquisas em torno da literatura tradicional, como a de C. Easterman (2), o qual tentou entender e analisar a natureza dos poemas colhidos nas tradições banto.

 

O papel da tradição oral e o trabalho de linguagem, envolvendo as línguas de origem banta e o idioma português, passam a fazer parte da consciência crítica da época e afloram em publicações e palestras de críticos e escritores como Agostinho Neto, que demonstrou uma profunda consciência em relação a essa questão para a afirmação da moderna literatura angolana.

 

As mudanças e renovações serão percebidas, em primeiro lugar, no campo da temática. A urgência da mensagem fará com que o tema prevaleça sobre a inovação estilística. Por outro lado, de acordo com Margarido (1975, p. 362), essa literatura não pode ser lida apenas como inventário de novos valores estéticos, pois um de seus maiores objetivos será  o inventário de valores da cultura angolana. Daí a organização de uma antologia temática como a de Mário Pinto de Andrade (3), levantando os temas mais freqüentes da poesia angolana de língua portuguesa.

 

A terra é o tema por excelência da poesia africana, podendo ligar-se tanto ao desejo de retorno às origens, como na poesia de Alda Lara, quanto à imagem perturbadora do trem, do comboio que leva os contratados para longe de suas casa, como nota Russel Hamilton (1981, p. 96), contribuindo para a desordem que se instaura no espaço violentado da colonização. O retorno às origens, por sua vez, evocará outro grande tema comum às demais literaturas africanas: a homenagem à mãe negra, a mãe universal, sempre telúrica, conforme Margarido (1975, p. 361), apontando, outras vezes, para o desamparo e a exploração que separa precocemente a criança do colo materno. A infância será também um tema bastante recorrente, indicando um período preservado, em que as diferenças sociais ainda não são tão acentuadas e apontando também para a fase crioula de Luanda. Outro tema freqüente, segundo Hamilton, se desenvolverá em torno da identidade cultural e da alienação. As ambivalências do branco e do mestiço, que procuram identificar-se com as aspirações populares, evidenciam-se, de forma criativa, em poesias altamente reflexivas de Antonio Jacinto, Alda Lara, Ernesto Lara ou Agostinho Neto.

 

Como podemos notar, muitos desses temas estão também bastante ligados entre si e se estendem aos demais sistemas literários africanos. Eles apontam não só para um conjunto de idéias e valores africanos, mas também para uma linguagem africanizante muitas vezes influenciada por correntes estético-ideológicas como a Negritude, o Pan-africanismo e o Renascimento Negro.

 

Para Hamilton (1981, p. 103), na literatura angolana, esse processo de reafricanização na linguagem se evidencia em diversos momentos e pode ser facilmente exemplificado na produção poética da Geração de 50: no esforço em combinar poesia narrativa e ritmo sincopado, trazendo a estrutura musical da rebita – uma dança popular de Luanda – para dentro da composição, como vemos no Poema “Sô Santo”, de Viriato da Cruz; na inserção da musicalidade da linguagem dos pregões dos bairros populares no “Poema da alienação”, de Antonio Jacinto; e, principalmente, na tentativa de Agostinho Neto de transmitir o ritmo acelerado da música africana aos seus versos, seja pela abolição das pausas marcadas, seja pela repetição de palavras, seja pela própria acentuação das contradições lingüísticas e ideológicas.

 

Como vemos, o compromisso da Geração de 50 de “angolanizar” a literatura levou os escritores a resgatar formas e valores da oralidade, nos quais descobrem um modo de lutar contra o discurso do opressor, afirmando a descolonização literária. As fontes da cultura oral tornam-se, assim, um novo começo; o antiqüíssimo passa a ser uma renovação. É o que mostra Laura Padilha, pensando com Os filhos do barro de Otávio Paz: “o traço da modernidade se pode encontrar no velho de milênios, se este rompe uma tradição, instaurando outra” (PADILHA, 2002, p. 49). Assim, recuperar a tradição, segundo Padilha, significa trazer para o texto a marca da alteridade, atingindo-se, a um só tempo, a afirmação identitária e a modernidade.

 

O grito de “Vamos descobrir Angola” se fez ouvir, atualizando o processo de desterritorialização de que fala Padilha (2002, p. 49), procurando inverter os sinais de menos impostos às formas culturais angolanas, abrindo um espaço para que elas pudessem se expressar.

 

     Nesse sentido, que, por sinal, não é exclusivo da literatura angolana, podemos pensar que a produção literária da geração de 50, já nesse momento, acena para o desejo de intervenção no próprio cânone ocidental. Ao radicalizar o comprometimento ético-social e resgatar as fontes tradicionais da oralidade, a literatura angolana contrapõe-se ao discurso hegemônico cristalizado. Traz para a cena literária uma discussão em que valores como justiça social e solidariedade não podem ser considerados secundários frente aos padrões estéticos, incomodando uma boa parte da crítica (4). O grito desses escritores é, portanto, um grito que termina por criar novos caminhos para a discussão do próprio conceito de modernidade literária.

 

Referências Bibliográficas

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HAMILTON, Russell Literatura Africana, Literatura Necessária, vol I, Lisboa: Edições 70, 1981.

LARANJEIRA, Pires. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Lisboa, Universidade Aberta, 1995.

MARGARIDO, Alfredo. Estudos sobre as literaturas das nações africanas de língua portuguesa. Lisboa: A Regra do jogo, 1980.

PADILHA, Laura. Novos pactos, outras ficções, Porto Alegre: EdiPUCRS, 2002.

 

Notas

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1. Ainda que tenham surgido alguns contistas nessa geração, a preponderância no grupo será no campo da poesia. [voltar]

 

2. R. Hamilton refere-se ao importante trabalho do missionário suíço Easterman na pág. 93 da já citada obra. [voltar]

 

3. Andrade, Mario (Pinto) de. Antologia Temática da Poesia Africana, vol. 1: Na noite grávida de punhais. Lisboa: Sá da Costa, 1976; vol. 2: O canto armado, 1979. [voltar]

 

4. Refiro-me a críticos que consideram a justiça social um mero detalhe, frente aos “padrões intelectuais e estéticos” como, por exemplo, Harold Bloom, em O Cânone Ocidental, Rio de Janeiro: Objetiva, 1995, p. 41. [voltar]