PANORAMA
Sobre a contemporaneidade do passado e a força do presente em O livro dos rios, de José Luandino Vieira
Rita Chaves (USP)
Inaugurando uma prometida trilogia, intitulada De rios velhos e guerrilheiros, José Luandino Vieira nos apresenta O livro dos rios, uma narrativa que à surpresa de sua própria edição, depois de tão prolongado silêncio do escritor, acrescenta outras e desconcerta mesmo o leitor já habituado à capacidade de surpreender que é característica tanto da obra, quanto do autor que, em maio de 2006, por exemplo, provocou apaixonada polêmica por ter recusado o maior prêmio literário em língua portuguesa. Vale ressaltar que ao longo das décadas, o nome de Luandino associa-se a uma série de fatos que fazem do próprio autor um notável personagem. O conjunto de episódios que cercaram a primeira edição de Luuanda constitui um capítulo de peso na história das relações coloniais com Portugal, e não só, com injunções que não foram ainda devidamente abordadas.
Um olhar retrospectivo sobre o conjunto da obra do autor permite-nos verificar que a ousadia do escritor, expressa nas estórias do livro de trajetória invulgar, cuja indicação para o Prêmio da Sociedade Portuguesa de Escritores no começo dos anos 60 provocou tão grande choque, manifesta-se nesse O livro dos rios, um texto que faz da articulação de contrários uma de suas linhas de força.
As estórias reunidas em Luuanda apontavam para uma diferença que o tempo só viria confirmar. Em seu percurso, inscrevia-se um projeto modulado pela idéia de identidade cultural que se antecipava à própria criação do estado nacional. Editado quatro décadas após o aparecimento de Luuanda, responsável por uma espécie de viragem na trajetória do autor, e trinta e um anos após o célebre novembro de 75, O livro dos rios reafirma alguns aspectos e acrescenta outros dados significativos para a história de Angola e sua literatura.
Essas décadas decorridas desde a independência, certamente, fomentaram mudanças profundas no território, todavia há traços que continuam a marcar a sua atividade literária, entre os quais a profunda relação entre o exercício da literatura e a vida social. E, também nesse aspecto, o texto de Luandino causa impressão, pois o autor renova-se confirmando a legitimidade de muitos dos caminhos que trilhou nas suas aventuras literárias. A narrativa, que estabelece explícitas conexões com outros textos seus, tem um travo novo, cuja dimensão se relaciona também com o fato de abordar hoje um fenômeno que foi vital na formação da literatura em Angola. O combate ao colonialismo e a luta armada – elementos essenciais do sistema literário angolano – aqui ressurgem e nos levam a pensar no sentido de se trazer à tona fatos e sentimentos que muitos insistem em esquecer.
Num tempo em que são freqüentes os apelos a uma tão hipotética quanto improvável harmonia, em que os anúncios de projetos comunitários não conseguem esconder os perigos da diluição das soberanias duramente conquistadas, o escritor desafina o coro trazendo-nos a luta armada e um guerrilheiro que passa em revista a sua vida e nos faz repensar tantas dimensões desse fato que assoma como um elemento estrutural na vida dos angolanos, na história do país e na trajetória de sua literatura. Algumas décadas depois, o fato ganhará outras cores e pode ser visto sob outros prismas. Diversamente do que ocorre com uma grande parte da literatura de caráter épico explicitamente comprometida com o projeto de construção do estado nacional, o texto potencializa a elaboração de uma outra epopéia, de onde estão afastados os paradigmas do maniqueísmo. Engana-se, contudo, quem pensa que o texto vai enveredar pela linha do revisionismo. É outro o modo de apreensão do escritor e será outro o resultado de seu gesto.
Sob o compasso da memória, Kene Vua, o protagonista, relata-nos em primeira pessoa o percurso de sua atribulada vida, num jogo em que suas travessias misturam-se ao processo de construção da identidade cultural de um país que ainda não é estado. Num roteiro em que são patentes os avanços e os recuos, a mobilidade da personagens se projeta no dinamismo de uma linguagem empenhada em dar corpo à rede de dilemas que cercam o guerrilheiro e é, ao mesmo tempo, própria do homem em confronto consigo próprio em tempos de acentuada tensão.
A busca de sua inteireza leva o homem ao passado. Mas é sob o signo do movimento que o narrador busca captar o passado nesse relato de memória que não se afasta do presente, procurando lançar luzes sobre a atmosfera turva de um quadro que tende a imobilizar os sentidos. Não podemos estranhar que seja o rio a imagem fundamental, numa escolha que nos conduz a uma nova geografia. Dos becos e vielas que marcaram as cenas captadas em Luuanda e em outros textos da década de 60, passamos aos rios que formam Angola. Luandino retoma a imagem do Kuanza trabalhada em A vida verdadeira de Domingos Xavier, e multiplica a sua dimensão simbólica pelos outros rios que ajudam a fecundar as terras de seu país, e, quem sabe, a lavar as manchas deixadas por tanta guerra.
No ritmo dessas águas que não param, a atmosfera só pode ser de transformação. A eterna mobilidade de todas as coisas, expressa na reiteração da referência aos rios, remarca-se também na imagem da fênix, que aparece no capítulo “Eu, o Kapapa”, o outro nome de Kene Vua, dado pelo avô e que ele recupera, confirmando a força da mutação. O universo greco-latino surge ainda na citação a Heráclito de Éfeso, um pensador para quem era essencial a preocupação com a atuação do tempo sobre os homens e as coisas, manifesta, por exemplo, na idéia de que não se pode banhar nas mesmas águas de um rio. A noção de mudança é, com efeito, um elemento estrutural na narrativa, mas, na sua radicalidade, o narrador revê a frase do pensador grego e alude à circularidade como uma força presente:
Só, que na guerra civil da minha vida, eu, negro, dei de pensar: são rios demais – vi uns, ouvi outros, em todas mesmas águas me banhei é duas vezes. (p. 15)
Rompendo com a expectativa do leitor, o narrador obriga-nos a um exercício constante de desconfiança em relação a qualquer pensamento pré-determinado. E investirá, muitas vezes, contra o saber cristalizado, modificando aforismos, reiventando ditados populares. Dessa investida não escapa o discurso bíblico que permanece uma das fontes sobre a qual o texto literário vai trabalhar, como vemos, por exemplo em “(...) E são pó e ao pó revoltam”.
O senso da contestação é, assim, uma das chaves dessa narrativa que se alimenta dos recursos da oralidade para reiventar a escrita e ampliar a sua capacidade de refletir a realidade complexa que aborda. O resultado não é um texto fácil, capaz de distrair o leitor talvez fatigado das lides do cotidiano. Ao contrário, o que temos é uma narrativa que rejeita a linearidade e procura romper com as concepções convencionais de tempo e espaço. A noção de simultaneidade que animou as vanguardas aqui surgem, carregando as tintas da opacidade. A crise que é tematizada contamina a linguagem e exige do leitor uma disposição efetiva para penetrar num terreno que não pode ser pintado com as cores da simplicidade.
Ao mergulhar no passado, o narrador nos arrasta para o presente e não é raro que o presente confunda a nossa avaliação, situação que se complexifica num panorama dramático como só pode ser a de um país povoado pelos longos anos de guerra. Compreende-se, então, que a retomada do passado possa parecer uma estratégia para a investigação do que parece natural, do que foi naturalizado pela sucessão dos fatos registrados como inevitáveis na condução dos dias. Desse passado, remoto e/ou recente, o narrador vai pescar referências, num jogo que inclui a Rainha Jinga e Agostinho Neto. Assinale-se ainda a dedicatória a Langston Hughes. São sinais de outros tempos, possivelmente velas de um porto onde está ancorada a contemporaneidade, angolana e não só, que é objeto de preocupação do escritor. Desse modo, Luandino rompe com o historicismo convencional e aposta na concepção de História defendida por Walter Benjamin, para quem
Articular o passado não significa conhecê-lo “como de fato ele foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. (...) O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.
Em se tratando de um escritor, de um homem que vive entre as palavras, podemos concluir que um dos grandes inimigos é o esquecimento, uma das faces da morte nesses tempos em que os homens parecem condenados ao isolamento, embora sejam tão poderosos os efeitos da comunicação. Ou, quem sabe, talvez por isso. Como escritor, Luandino sabe que a oposição ao esquecimento pode se patentear na elaboração de novas épicas e O livro dos rios abriga também, como já assinalamos, uma operação dessa natureza. Essa épica não se organiza em cima da verdade única e inabalável, mas alimenta-se da dúvida que torna o debate mais rico e produtivo.
Muitas batalhas se travam no desenvolvimento dessa narrativa que chama a atenção para a pluralidade como um elemento positivo. Com efeito, a diversidade que subjaz à formação na identidade angolana aparece aqui tratada, num processo que se ergue contra o esquematismo dos preconceitos, contra a fragilidade dos reducionismos. E tudo isso nos chega numa linguagem poeticamente trabalhada. Os neologismos, as rupturas na sintaxe convencional, a adoção de novas gramáticas, as técnicas de montagem que exprimem diferentes concepções de tempo e espaço, certamente, criam algumas dificuldades na apreensão das mensagens que mobilizam o autor, daí a necessidade de um mergulho profundo, que nos coloque num contato intenso com as águas desses rios que continuam a correr no presente angolano, e não só.
Por quebrar o silêncio de algumas décadas de um escritor que revolucionou a ficção de seu país, O livro dos rios não pode deixar de constituir notícia no universo literário em língua portuguesa e no cenário cultural angolano. Desde 1981, ano da edição de Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & eu (estórias), os leitores dividiam-se entre a convicção da qualidade de uma obra consolidada e a expectativa de novos textos de um autor que já dera tantas provas de seu extraordinário talento, expectativa que só cresceu com a publicação de Kaapapa, pássaros e peixes, narrativa integrada a uma coleção publicada por ocasião da Expo 98, em Lisboa, e Nosso musseque, romance editado em 2003, escrito, de acordo com o autor, nos anos 60.
Ao chegarmos, entretanto, ao fim das 128 páginas que Luandino nos oferece, podemos perceber que há mais motivos para celebrar. Estamos, uma vez mais, diante de um texto que atesta a vitalidade da literatura angolana e confirma a legitimidade de uma obra que se renova mantendo-se fiel a alguns de seus mais sólidos princípios.