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Memorial Machado de Assis – Um século depois de sua morte

 

 

Isabel Bellezia dos Santos Mallet

 

 

Com objetivo de pensar a importância deste clássico da literatura de língua portuguesa um século após sua morte, o Diário Oficial da União, sob a lei 11.522, instituiu o ano de 2008 como Ano Nacional Machado de Assis. Para tal, eventos literários percorrerão todo território nacional durante o ano corrente, com destaque especial para FLIP (Festa Literária Internacional de Parati), que acontecerá de 02 a 06 de julho e que terá como autor homenageado Machado de Assis.

 

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BIOGRAFIA:


Nascido no Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839, Joaquim Maria Machado de Assis consagrou-se nacionalmente como jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo. Mestiço e de origem humilde, o filho de operário criou-se no Morro de Livramento de onde, pela primeira vez, sua voz foi ouvida por meio da publicação de seu primeiro feito literário, o poema “Ela”, na Marmota Fluminense, em 12 de janeiro de 1855. Seu caminho na poesia seria, pois, concretizado com a publicação de seu primeiro livro de poesias Crisálidas, de 1864.


Sob proteção e incentivo acadêmico de Manuel Antônio de Almeida desde 1856, Machado de Assis iniciou-se na carreira jornalística como aprendiz de tipógrafo, na Imprensa Nacional, passando, posteriormente a revisor e colaborador do Correio Mercantil, redator do Diário do Rio de Janeiro e crítico teatral nas revistas O Espelho e Jornal das Famílias. Casou-se em 1869 com a portuguesa Carolina Xavier de Novais, com quem viveu durante 35 anos.


Autor de aproximadamente 205 contos, o Bruxo do Cosme Velho, como mais recentemente foi denominado, teve seu primeiro romance, Ressurreição, publicado em 1872, ano em que estreou na política como Secretário de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obra Públicas, cujo cargo diretório seria por ele ocupado em 1889. Ainda no decênio de 1870, publicou no Jornal de Quintino Bocaiúva seu segundo romance A mão e a luva em formato de folhetins. No entanto, foi na década de 1880 que se deu o lançamento de Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance que marcaria irremediavelmente a carreira literária de Machado de Assis.


Escolhido como mentor e presidente da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis assistiu à sua inauguração em 28 de janeiro de 1879, escolhendo como seu patrono o escritor e amigo José de Alencar que havia morrido cerca de vinte anos antes da fundação da ABL ou Casa de Machado de Assis, como é freqüentemente chamada. Ocupou a presidência da Academia até seu falecimento, em 29 de setembro de 1908.

 

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 A OBRA MACHADIANA:


Tido como gênio pelo crítico literário Antonio Candido, Machado de Assis, após ter concebido obras românticas, indianistas e parnasianas, inaugura entre 1880 e 1900 uma fase que foge a quaisquer denominações de escola literária. Cronologicamente, o Brasil vivia, na segunda metade do século XIX, os reflexos do movimento realista-naturalista, cujo materialismo e objetividade confrontavam-se com a subjetividade e idealização românticas.


No entanto, não alheio às tendências literárias do período já retratado, o autor opta pela crítica bem humorada ao cientificismo da época e pela caracterização interior das personagens, em detrimento das descrições objetivas e superficiais propostas pelo movimento literário vigente. Assim, ao privilegiar o indivíduo e suas inconstâncias, Machado de Assis anuncia o nascimento de um sujeito fragmentado e contraditório, tão comum nas ficções do século XX. Não é estranho, portanto, que uma das personagens machadianas de maior notoriedade, Brás Cubas, tenha seu discurso delineado pelo fluxo inconstante da memória e não mais pela ordem tradicional cronológica. Dessa forma, “a figura nítida e inteira” (ASSIS,1882 ) do sujeito ficcional cede agora lugar a “feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes”. (ASSIS,1882 ).


Fortemente marcado por uma natureza irônica, o acervo literário machadiano denuncia que tal recurso lingüístico tem como intuito ir além do dizer o contrário do que se está pensando ou sentindo.Em última análise, a ironia (do grego eironéia: interrogação) busca o questionamento capaz de levar o leitor ao reconhecimento de sua própria ignorância e, conseqüentemente, ao abalo de suas certezas, certezas essas que não serão, sob nenhuma hipótese, devolvidas ao leitor pelo autor. Ao contrário, ora seus contos e romances apresentam-se inconclusos ora permitem dupla leitura, fazendo com que o desconcerto que brota das incertezas seja a alavanca para o conhecimento universal e intemporal.


É, portanto, com boa dose de ironia e de pessimismo que, em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), o autor enigmático apresenta novos caminhos para o romance brasileiro, ao colocar a narrativa como um relato tecido por um defunto-autor (ASSIS, 1881), aspecto que evidencia a elasticidade com que Machado de Assis tratará temas tradicionalmente entendidos como fixos e imutáveis: vida e morte, início e fim. Marca registrada do autor, a natureza metalingüística presente não apenas no referido romance como em tantos outros, é evidenciada pela maneira machadiana de tomar pela mão o leitor, conduzindo-o ao mundo das palavras. Mundo reconhecidamente frágil, pois que, enquanto signo, não apreende a realidade tal qual ela é. Diante de tal fragilidade, o defunto-autor prefere, no capítulo 55 da obra, usar o silêncio em lugar das palavras.

 
Antecipando-se, assim, ao pós-modernismo brasileiro, em que o indizível fora fortemente problematizado, Machado de Assis verbalizou, em fins do século XIX, o lugar mais íntimo onde a palavra, enquanto signo, não consegue chegar . O tema, quase um século depois, voltou a ser objeto de discussões em obra de Clarice Lispector, A Hora da Estrela. Disse Rodrigo S.M, narrador da referida novela: “A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem só uma palavra que a signifique”(LISPECTOR, 1977).  Suas reflexões seguem e com elas surge a pergunta “Será mesmo que a ação ultrapassa a palavra?”(LISPECTOR, 1977). E a própria Clarice responde em obra anterior Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres: “Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo.”(LISPECTOR, 1969 ).  Tem-se aí a crise da representação, prevista outrora pelo “gênio” brasileiro, em que está latente a tensão entre a aparência e o ser.


Merece também destaque especial o conto “O Alienista”, concebido na segunda metade do século XIX. De início, chama-nos a atenção o fato da narrativa ser apresentada como um “relato supostamente baseado em relatos anteriores” (SECCHIN, 1994) , dos quais nada se sabe, uma vez que não constam em registros escritos. Resta, então, aos leitores acreditar na palavra do narrador ou dela duvidar, coisa inevitável, já que o discurso do narrador não será apenas dele, mas dele e de seus predecessores. Dessa forma, confere-se à narrativa a noção de duplicidade que permanecerá latente ao longo de todo o conto. Portanto, não é demais concluir que tudo ou quase tudo em “O Alienista” “será sempre outra coisa, ou uma segunda coisa” (SECCHIN, 1994).


Logo de início, temos uma pequena amostra da duplicidade de nosso herói Simão Bacamarte, cuja formação é portuguesa e nacionalidade brasileira. Sobre sua figura vale ainda ressaltar sua entrega e seu amor à ciência. Por ela, o alienista exila-se em Itaguaí e encontra nessa pacata cidade um mundo de experimentações, onde as “cobaias” fazem parte da própria população local. Com uma boa dose de ironia, o narrador apresenta-nos um alienista que vive para ciência e, por ela, casou-se: “(...) D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava, assim, apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes”(ASSIS, 1881). Foi também em nome da ciência que Simão Bacamarte abriu em Itaguaí, graças ao seu discurso eloqüente e ao seu linguajar científico, uma casa de Orates e pôs-se a estudar a mente humana.


Apresentado, de início como “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas” (ASSIS,1881 ), a caracterização de Dr. Bacamarte sofre alterações ao longo da narrativa, o que, mais uma vez, evidencia a estrutura móvel e instável do conto. Tais mudanças são determinadas por um jogo hiperbólico de crescimento e de contração de seu juízo de valor, movimento esse que engrandece ou diminui exageradamente a verdade das coisas.  É importante que se destaque essa última expressão: verdade das coisas. Não é pretensão da hipérbole, ou de quem dela se utiliza, faltar com a verdade daquilo que se está descrevendo, mas, ao contrário, ratificá-la. Portanto, ao engrandecer Simão Bacamarte o que se pretende é conduzir o interlocutor à verdade.  O mesmo deseja-se quando há diminuição exagerada em relação ao herói. Por isso, ao revelar que “D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte” (ASSIS,1881), o narrador trabalha com a hipérbole de redução, admitindo o fracasso do psiquiatra, fracasso que chega ao seu auge com o esvaziamento quase total da Casa Verde e com inversão de papéis sociais: o alienista, diante dos olhos públicos, passa a alienado.


Assim, ao atribuir à obra uma estrutura instável, móvel e flutuante, ratifica-se a ousadia machadiana em desconstruir a rigidez com que determinados aspectos são tratados na sociedade da época e, por que não dizer, na sociedade atual. Em relação aos conceitos de demência e de razão, percebe-se uma movimentação de seus limites, podendo os mesmos caminharem para direita ou para esquerda, para cima ou para baixo, conforme a “vontade” e interpretação do leitor. Alienista ou Alienado? Papéis sociais passíveis de relativização. 

 

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PRINCIPAIS OBRAS:

Poesias: Crisálidas (1864), Falenas (1870), Americanas (1875), Poesias Completas (1901)

Romances: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878), Memória Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908).

Contos: Contos Fluminenses (1870), História da meia noite (1873), Papéis Avulsos (1882), Histórias sem data (1884), Várias histórias (1896), Páginas recolhidas (1899), Relíquias de casa velha (1906).

Teatro: Queda que as mulheres têm para os tolos (1861), Desencantos (1861), Hoje avental, amanhã luva (1861), O caminho da porta (1862), O protocolo (1862), Quase Ministro (1863), Os deuses de casaca (1865), Tu, só tu, puro amor (1881), Teatro coligido (1910).

 

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PARA MAIS INFORMAÇÕES :

Academia Brasileira de Letras

Museu da Imprensa

Festa Literária de Parati

Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa

Jornal de Poesia