Fabulário
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a chama de gorée
Ondjaki
dia primeiro
01.5.04venho dizer destas ruas que o sol aperta
e as sombras e os panos e as tranças nas meninas que passam – crianças que olham o mar com a simplicidade das pedras, aqui onde todas as varandas penduram ausências de gentes por regressar.
os pássaros voam parados, suspensos e próximos, dando sombra às árvores e graça ao céu azul. vejo telhados sobre as pedras e pedras sobre a ilha, mas o chão respira uma frescura humana, os panos vestem as pessoas e as pessoas buscam negócios de regateio. chega um barco cheio de palavras caladas – em gorèe há só o som das árvores e das gentes. mais tarde a noite dará voz às sombras, as sombras serão calmaria e escuridão. as árvores beijarão os pássaros. os dedos hão-de alcançar um torpor de mansidão. era de tarde ainda e um cabrito declamava o seu mé poético. talvez em seu voo sonoro ele cantasse a ilha, talvez buscasse pontes para o outro lado de todas as águas. dentro do cabrito uma rã despertou, e ele – lento, moroso, adormecido – esvaiu-se nos caminhos do vento, com estórias de desafio à racionalidade, vendendo destinos a quem soubesse escutá-lo. sinto-o ir, mas ao vento não.
longe soa o apito de partida, mais que a gente que parte é a gente que fica – entre festa, alarido e contemplação, quem vai olha para a terra, quem fica tem saudade do mar. o apito de partida é o sinal de chegada àqueles que decidiram ficar.
é de tarde ainda e quase de noite já. são os pássaros que o dizem. no céu não existem lágrimas de despedida; chegou a lua; as árvores adormeceram e sinto no ar, nos restos desta tarde senegalesa, um arfar de madeiras. não vejo canoas, sinto apenas a sua dança, um embalar de braços e ondulações, uma cantoria de remos, um poema molhado no sal das águas.
quero a lua sobre a mesa – junto ao peixe, ao molho, ao arroz que devolve à minha refeição o branco do luar. quero a lua banhando as ripas de madeira, quero conchas rumando ao meu quarto vazio, quero lençóis plenos de uma maresia fresca – para que a noite resulte e, depois dela, nas frestas do meu lençol branco, a madrugada possa vir sorrateira aprisionar-se em mim.
quero um grilo calado, um pirilampo em sereno apagamento, vozes para voos rasantes, ou uma luz negra que, sem acordar, acabasse por adormecer.
dia segundo
02.5.04eu vi sol no cais e as ondas divagantes colorindo o mar de manchas brancas; de noite ouvi vozes que não de grilos, talvez peixes voadores talvez pássaros noctívagos e hoje, pela manhã, vi o sol no mar e as ondas manchando o meu olhar. uma saudade amarela abateu-se sobre mim e eu ri – porque era cedo e o sorriso condizia com as nuvens, porque as nuvens não tinham chegado ainda e daí talvez um anzol no meu sorriso.
caminho. numa praça de poeira deitada, três imbondeiros fazem a vez dos mais-velhos, varande de tempo, matriz e testemunhas de escravos idos. as roupas estendidas dão cor e movimento à ilha; as crianças dão sorriso às ruas, às pedras, aos muros caldos. as crianças brincam esquivando as pedras, as pedras desejam colidir com as crianças. o cais espera o barco que há-de trazer outras gentes, e é aqui – junto ao mar – que as varandas de madeira vêm espreitar os homens: dois homens de andar compassado que, olhando a varanda, são por ela olhados; dois homens que passam ausentes de duas amadas e que, por amizade, passam de mãos dadas. eu vi os homens perto do cais e as ondas por trás e os imbondeiros perto das crianças que esquivam as pedras de sorriso aberto. insistências a que a contemplação obriga e a mão sugere – lá longe repousa dakar, os seus bares nocturnos, as suas moças belas e decadentes – flores amurchadas por sombras, luas que não foram crescentes. em gorèe uma luz invade o dia e a ilha se torna magicamente calada. aqui os pássaros pousam e são as árvores que voam. as crianças sentam-se e são as pedras que brincam. o mar termina na praia, as ondas invadem as escadas, as casas, as camas.
doce ilha – aqui no cais repouso os olhos no horizonte e dou-lhes ternura para que embalados possam acordar.
dia segundo – à tardevento: sei que pelas folhas-em-dança falas para a ilha. perto das pedras escuto, atento, a tua força. não sei se és vento ou vasta maresia,
sei que usas folhas para fazer-te poesia.
dia terceiro
03.5.04de noite em gorée as luzes acordam no cais e nestas vielas as árvores buscam adormecimento.
um homem artista, dono de figuras esguias partilha um pouco do seu espaço comigo – oferece a porta destrancada de casa e com um isqueiro guia-me entre as paredes da sua imaginação. tem memórias penduradas e uma esposa que chega depois, tem calos nas paredes e calor nas mãos, abandona o isqueiro e deixa o vento declamar em seu lugar. fala-me de heranças a que a ilha convida e incita-me a escrever. pede-me um saco de presente e despede-se assim: entre angola e senegal há apenas a distância de um sopro leve.
cheira a liamba doce nas arestas das vielas.
dia quarto
04.5.04quero as águas calmas e as flores vindas da praia e chegadas à minha mesa.
uma embarcação solitária brinca de baloiço fintando as ondas, aguenta firme a sua quietude, quer chegar antes de partir e, simulando avançar, brinca, brinca, sem sair do lugar.
e tu âncora
estarás triste no fundo deste mar?
era de noite e os olhos dos gatos praticavam luares. um peixe desmaiado veio ver a costa; um gato interessado veio ver a amostra. quanta movimentação: do céu tombou um pedaço de comida e em voo bicado vem o pássaro à sua busca. olho o pássaro:
as suas patas firmes
a árvore deitada sob o seu olhar.
parte o peixe na boca do gato; mas as flores, silenciosas e inodoras, permanecem à minha mesa.
dia quarto – madrugadano céu havia um eclipse indeciso que vivia de quem o olhasse com doçura, pelo lado esquerdo da ilha, espécie de transe e transparência, slide de encantamento projectado no pano negro
em terra havia uma bandeira de ternura içada pela força de abraços e melancolias acumuladas, estendal de frases, riso e extinta fraternidade.um feixe de luz invadia a baía
uma canoa partia
cordas de pano penteavam a areia, invadindo as pedras, as águas, a paz do mar.lá longe, tão perto, um cabrito acordou e, gemendo, desfez a corda que o prendia à madrugada.