Fabulário

 

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Gênese

 

Adriana Lisboa

 

para Sérgio Sansão

 

No Quênia, um deus canta e toca tambores. Suas mãos estão sujas de argila enquanto ele molda o vaso. Já não é um vaso, é uma moringa. Já não é uma moringa, é uma escultura.


Já não é uma escultura, é uma mulher. Pensa o deus: moldo uma mulher, depois moldo um homem. A música do Quênia canta em argila de todas as cores o corpo da mulher, branca, e do homem, negro. O deus toca tambores. O homem e a mulher enchem seus pulmões novos com ar seco. No sétimo dia, em vez de descansar, o deus dança sobre a corda bamba do horizonte, em companhia de suas criaturas, ciente de que por um segundo o mundo é infinitamente bom.