Afro-luso-universal:
cavaqueando com José Eduardo Agualusa
Não é difícil encontrar José Eduardo Agualusa em eventos literários de língua portuguesa. Na verdade, ele parece estar em todos eles. O historiador português Rui Tavares chegou a brincar que o autor angolano parece ter sido clonado. Africano, lusófono e universal. É assim que esse escritor nascido em Huambo se sente. “Cada vez há no mundo mais pessoas com múltiplas identidades”, acredita. “Vejo isso como uma riqueza.” Diz que assim pode aproveitar o melhor de todos esses mundos. Aos 47 anos recém-completados, Agualusa assina uma obra que reúne sete romances, uma novela, cinco volumes de contos, um de poesias, um de literatura infantil e uma peça de teatro. Membro da União dos Escritores Angolanos, ele é também um dos proprietários da editora brasileira Língua Geral, dedicada exclusivamente a autores de língua portuguesa, ao lado de Conceição Lopes e Fatima Otero. Em nossa cavaqueira eletrônica – conversamos por e-mail –, ele fala de sua preocupação com questões ligadas aos direitos humanos, reclama da ausência de negros entre os personagens da nova literatura brasileira, comemora o bom momento da literatura lusófona e confessa que não poderia escrever em outro idioma. “Seria um outro escritor se escrevesse em francês.”
Para começo de conversa, me diga como tem visto a literatura lusófona na cena literária mundial. Acha que ela vive um bom momento ou já esteve melhor?
Acho que a literatura em língua portuguesa está a viver um excelente momento. Em Portugal e no Brasil todos os anos surgem novos escritores, alguns com talento para dar e vender, e capazes de questionar formatos e ideias feitas. Um bom exemplo é o Gonçalo M. Tavares, que surgiu de repente, com uma energia incrível, e em poucos anos conseguiu impor o seu universo absolutamente particular. Entre os portugueses mais jovens vale a pena citar também a Patrícia Reis, que a Língua Geral tem vindo a publicar no Brasil, ou o José Luís Peixoto.
Escrever em português faz diferença em sua literatura?
Claro, eu não conseguiria escrever em nenhuma outra língua. E também acho que teria bastante dificuldade em escrever sobre mundos muito distantes da lusofonia, ao menos com profundidade. Eu acho que assim como nós construímos a língua também somos construídos por ela. Seria um outro escritor se escrevesse em francês.
Como você vê o trânsito entre as literaturas lusófonas nos países onde a língua portuguesa é falada?
O trânsito da literatura entre os nossos países aumentou muito nos últimos anos. Diria que se regularizou. Hoje em dia é muito fácil encontrar nas livrarias portuguesas os nomes mais importantes das literaturas brasileira e africanas, e nas livrarias brasileiras os nomes mais importantes da literatura portuguesa, e os africanos começam a chegar. Angola, infelizmente, está muito atrasada nesse processo. Acho que o governo deveria acabar com as taxas alfandegárias. Angola precisa importar livros, uma vez que não os produzimos.
O que o atrai mais, como leitor, nas literaturas lusófonas?
Leio bastante e tento acompanhar o que se faz no Brasil e em Portugal, mas nem tudo me interessa, evidentemente. Aflige-me um pouco que a atual literatura brasileira tenha excluído quase por completo os afro-brasileiros. Deixou de haver negros e mulatos como personagens na literatura brasileira. Isso parece-me muito estranho. Em Portugal, curiosamente, não é assim. Os escritores estão a debruçar-se nos seus livros sobre os novos portugueses de origem africana, e mesmo sobre África. Basta ler Francisco José Viegas, Lídia Jorge ou António Lobo Antunes.
Você procura atribuir um papel político à sua literatura?
Questões como memória ou identidade, que são íntimas, mas também são públicas, têm implicação política direta. Na maior parte dos meus livros, mas em particular n´ “O Vendedor de Passados”, elas estão presentes. Além disso, tenho romances políticos, como “Estação das Chuvas”, que trata da repressão aos movimentos políticos de esquerda logo após a independência de Angola. Se você quiser, é um livro que se preocupa com os direitos humanos.
Com que questões políticas você tem se preocupado?
Todas as questões ligadas aos direitos humanos. Questões ligadas à defesa do ambiente. Como lhe disse atrás, a literatura é sempre uma forma de reflectir sobre as questões que me preocupam, e também de intervir. Entrevistas também.
Em que você acredita e no que não acredita?
Pergunta vastíssima. Acredito que a humanidade pode se tornar melhor. Acredito que um dia não haverá exércitos. Não acredito em raças. Não acredito em George Bush. Acredito que o Brasil tem a melhor música do mundo. Acredito que Deus gostaria de ser brasileiro, mas não acredito em Deus. Acho que, se Deus quisesse que acreditássemos nele, Ele nos diria. Se não nos disse nada, é porque não quer que acreditemos nele. Acreditar em Deus, portanto, é ir contra a vontade Dele.
Por que você escreve?
Outra pergunta impossível. Como um dia ouvi dizer a uma garota de programa: “faço porque gosto”. Escrever é ao mesmo tempo reflexão, divertimento e terapia, e ainda me pagam por isso. Porque você não escreve?
Você também fez cinema. Como foi a experiência?
Escrevi dois roteiros. Não foi a melhor experiência da minha vida. Também já escrevi para teatro. Gostei mais.
Tem algum livro no prelo? Que outras coisas tem feito?
No prelo não, estou a escrevê-lo. Não tenho feito muito mais, além de escrever e viajar. As viagens são quase sempre uma conseqüência dos livros. Viajo para escrever livros ou para promover livros. Gosto de participar em encontros de escritores porque quase sempre há uma turma divertida, gente que tem interesses semelhantes aos meus, pessoas que gostam de livros. Escritores costumam ser bons contadores de estórias. Eu gosto de ouvir contar estórias.
O que está lendo neste momento?
O novo romance da Inês Pedrosa, e um romance ainda não publicado da Patrícia Reis, “No Silêncio de Deus”. Os dois são muito bons.
Para conhecer um pouco mais de Agualusa, acesse seu site: www.agualusa.info
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