Linfa
Luzes das grandes cidades. Olhas para elas enquanto o avião perde altitude e vê-las cobrir a crosta terrestre como fungos brilhantes. São células que estendem as suas ramificações, como bracinhos intermináveis, umas para as outras. Em tempos este planalto foi só mato e terra vermelha. À noite ouviam-se guinchos de animais, mas nada se via naquela negrura de breu. Milhares de anos passaram assim, até às primeiras fogueiras e archotes e acampamentos nómadas, e mais umas centenas até às primeiras casas perdidas no meio de enormes fazendas, mal alumiadas por velas e candeeiros a óleo, distantes umas das outras por horas e dias a cavalo, carentes até da noção da sua própria solidão.
A primeira verdadeira cidade que nasceu neste pedaço de terreno que os teus olhos espreitam da janela do avião foi fundada há não mais de duas gerações. É no Novo Mundo, onde todas estas coisas te atingem de frente, mas poderia ser em qualquer outra região do globo. Espalhámo- nos como uma poeira a partir de África, há pouquíssimo tempo na história do planeta. Uns milhares de primatas, discretos e pouco notáveis, pouca diferença fizeram até habitarem em todos os continentes. E foi só na ponta mais recente da fase mais recente da pouca história que passámos aconchegados em cidades — talvez por medo —, que a electricidade iluminou os solos e algo de extraordinário aconteceu. Dás-te conta do que foi, ensanduichado entre o céu estrelado e a terra dura, num avião disparado a centenas de quilómetros por hora. Aquilo de que te dás conta: de que as luzes das cidades abaixo são mais belas do que as luzes das estrelas no céu. São mais ricas e fascinantes, e as outras comparativamente pálidas e inexpressivas.
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Isto assusta-te um pouco. Capitais, cidades maiores e menores. Subúrbios e dormitórios. Áreas industriais e hoteleiras. Hospitais e universidades. Shoppings e lixeiras. Aeroportos e centrais eléctricas. Tudo isto pode ser, na maior parte do dia, verosimilmente feio e repetitivo. Mas à noite parece qualquer coisa que não existe na natureza, e talvez mais belo do que tudo o que existe na natureza. Estradas, ramais, caminhos de ferro ligam todas estas coisas, e cada uma destas ligações se ilumina também. Aquela estrada há uns anos era um fiozinho, uma linha, um riacho, um afluente, e agora rio de caudal avassalador. Vês nele os camiões, os automóveis, até as luzes das motos, saem e entram de outras estradas iguais, através de viadutos, trevos rodoviários e eixos, cruzamentos e circulares.
Os fios que ligam tudo isto são, ano após ano, mais espessos e mais brilhantes. Um dia até os espaços negros entre cada um deles estarão preenchidos também. Tudo isto será um mar de luzes amarelas, alaranjadas, brancas, vermelhas, às vezes azuis ou verdes, trémulas todas elas. Essas luzes serão como moluscos agarrados às rochas até que deixemos de ver as rochas.
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Assusta-te pensar que te encontras diante de um organismo vivo. É o que parece, visto do alto. São veias e capilares, aglomerados de células, tecidos e corpúsculos. Que objectivo terá isto? Terá intenção, terá uma vontade? Saberá para onde se dirige? Será que, em certo sentido, isto já não somos nós?
Ou melhor, aflige-te pensar se somos uma espécie cancerígena. Sabes que é uma pergunta que se faz, uma opinião corrente, e costumas tratá- la com um certo desdém. Neste momento não estás tão seguro. Sabes que por todo o lado se cruzam aviões como este, e que de todo o lado se vêem estas luzes, mais numerosas e extensas ainda, na China e na Europa, na Índia e nos Estados Unidos. Escapam ainda por pouco tempo África, os grandes desertos, os pólos. Sobrarão apenas os oceanos, se sobrarem.
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É tentador pensar que te encontras diante do sistema circulatório, das correntes sanguíneas que sustentam os estados, as economias, as civilizações inteiras. Mas a tua toada hoje é melancólica, e não consegues ver sangue vermelho naquelas luzes amarelas cada vez mais próximas.
Interrogas-te se o planeta já se apercebeu de que nos tem às costas, espalhando-nos e agregando-nos através dos vastos sertões, pulsando na escuridão. Não somos como o sangue. Somos como a linfa, ignorada, secreta, mas sempre ali.
Aprendeste qualquer coisa sobre a linfa na escola, tentas lembrar-te do que era ao certo. Corre linfa, neste preciso instante, no teu corpo — de onde para onde? — pelas veias? — pelos capilares? — através dos gânglios? Já nem tem lembras se alguma vez soubeste. A linfa começa ou termina nos gânglios? Ouviste alguém pronunciar a palavra “linfonodos”, “linfonodos” ou “linfonódulos”, para qualquer coisa que se relacionava com “drenagem linfática”. Conheceste alguém que teve um “linfoma”, sabes que os linfomas matam e chegam em dois géneros: os “linfomas de Hodgkin”, que são a maioria, e os “linfomas não-Hodgkin” que são todos os outros.
Não fazes idéia do que quer isto dizer. Já viste o teu próprio sangue — mas a linfa não. Já provaste o teu sangue, como todas as crianças, depois de teres ferido os joelhos ao brincar. Conheces o sabor do teu sangue — mas o da tua linfa não (é salgado). Não sabes o que ela faz, não sabes para que serve, presumes que seja importante. Existe qualquer coisa importante, que corre no teu corpo, que sempre correu no teu corpo, que não para de correr no teu corpo, mas que não sabes o que é, que nunca viste, que não sabes onde encontrar, que não entendes o que faz. Toda a tua vida menosprezaste a linfa. E um dia ela mata-te...
O escritor mantém coluna mensal na Revista Blitz |